segunda-feira, 30 de novembro de 2020

OS POLÍTICOS E SUAS HISTÓRIAS MARAVILHOSAS

  ALMOÇO DE TRÊS RAPOSAS: MONTORO,TANCREDO E BRIZOLA.  Na Página Folclore Político e Social.   

“HENRICÃO”

 AS VOZES NEGRAS DO Rádio no Brasil

Citamos nas postagens anteriores alguns dos poucos personagens negros de nossa música popular. Seria por demais desnecessário falar de outros inúmeros nomes consagrados como Pixinguinha, Geraldo Pereira, Mansueto, Elza Soares, Ângela Maria, Dona Ivone Lara, Milton Nascimeto, Gilberto Gil, Martinho da Vila, Zé Keti, Agostinho dos Santos, Lupicínio, Jamelão, Ataulfo Alves, Dorival Caymmi, Cartola... etc etc. A relação é imensa.

Para nos centrar aos que enumeramos, desde a primeira postagem sobre as vozes negras no rádio brasileiro,  - no período áureo do rádio – é a vez de Henrique Felipe da Costa conhecido como “Henricão” devido às suas proporções descomunais, nasceu em 1908 na cidade de Itapira-SP,  o pai era tocador de congada e era acompanhado por ele, “Henricão” e pelos irmãos. Tentou o futebol foi para a capital paulista, não deu certo, enveredou pelo samba e junto com uns peladeiros, criou o clube “Cai Cai”, depois transformado em bloco carnavalesco e, por fim, uma Escola de Samba a tradicional  “Vai Vai” . Carnavalesco como sempre, chegou a ser Rei Momo do carnaval paulista, eleito em concurso o dia 26 de fevereiro de 1984. Não deu para mais ninguém: 1,90 de altura e 150 quilos. Era o Primeiro Rei Momo negro da história de São Paulo.


O popular “Henricão”  no meio musical fez dupla com algumas cantoras. Conheceu no programa de Cezar Ladeira, a cantora Carmen Costa, (detalhes na página Memória Musical) com quem faria a dupla e alcançando o período de maior projeção, chegando a casar com ela. Em 1941, compôs com Rubens Campos um sucesso que nem foi feito para o carnaval do ano seguinte, 1942, mas, uma consagração até os dias de hoje, em todo festejo carnavalesco que se preze. Está chegando a hora. Embora não fosse original, e sim, um plágio de um sucesso musical mexicano, Cielito Lindo. Segundo depoimento de Carmen Costa, a versão mexicana é de sua autoria Faleceu aos 76 anos vítima de AVC (acidente vascular cerebral), em 1984. Meses antes, havia sido homenageado na Câmara de Vereadores de Itapira, onde se despediu dos seus conterrâneos. Vamos reviver Está chegando a hora, na página Memória Musical.

 

sábado, 28 de novembro de 2020

AS VOZES NEGRAS DO Rádio no Brasil

Continuando com o tema, uma figura que começou também no rádio, passando depois para o cinema e a TV, o  mineiro de Juiz de Fora, Alípio Miranda da silva (nasceu em 1921), o “Pato Preto” ou  “O Cow-boy Preto da TUPI”. É outro exemplo desta forma de tratamento dado aos artistas de cor e é bastante farto, como já vimos nos exemplos anteriores.

 

Some-se ainda o “Grande Otelo”, o ator baixinho na estatura e um gigante na arte da interpretação, da comédia aos dramas. O apelido deste também mineiro veio do personagem de Shakespeare, um mouro. Grande Otelo, além de ator reconhecido internacionalmente era também cantor e compositor  - inclusive – coautor de um clássico da MPB o samba  Praça Onze (de1942 em parceria com Herivelto Martins gravada na Colúmbia, por Castro Barbosa e o Trio de Ouro, composição que tem uma história interessante e que merece ser relembrada – aguardem as próximas postagens) .

No mesmo momento de nossa história, onde mais florescia a presença dos negros na música brasileira, (na verdade, eles que começaram tudo, foram os pioneiros), lamentavelmente mais se pontuava posições na imprensa  tanto no eixo-Rio/ São Paulo, como em outros centros importantes do País.

Um dos episódios de latente preconceito virulento, saiu num artigo publicado  no Jornal do Comércio do Recife, em fevereiro ce 1937, escrito pelo piauiense  Berilo Neves, falecido em 1974. Escreveu:

-“contra a africanização definitiva de nossa arte ligeira, os sambas,  emboladas, substituem  ao que parece o petróleo que nos falta. Há toda uma grande indústria organizada, com esses ritmos bárbaros...” mais adiante diz: “...A economia nacional nada sofre com o triunfo das cantoras semiescuras, ou escuras de todo. O que sofre é o nome artístico do País. Quem sofre são os nossos nervos, Quem sofre são as donas de casa. O Brasil perdeu, atraídas pela glória do radiofônica  algumas de suas melhores cozinheiras....” vamos ficar por aqui. Por trás desse “vendaval”  estava  o preconceito contra o samba, o “ritmo carioca” que era uma pedra no caminho do frevo pernambucano, que procurava ganhar espaço em outras regiões.

...“Quem não ama a cor morena morre cego e não ver nada...” já falava na mesma época os versos do cangaceiro “Volta Seca”, do Bando de Lampião, na sua “Maria Bonita”.  

Ari Barroso, não deixou por menos e lançou na voz de Sílvio Caldas, pela  gravadora  RCA Victor, em 1941, MORENA BOCA DE OURO, “aquela que me faz sofrer e o seu jeitinho é quem me mata”...

Vamos reviver na página Memória Musical. Ainda, com Mário Reis - MORENINHA DA PRAIA de 1931. E Nerino Silva , em MULATA da dupla Venâncio e Corumba.


sexta-feira, 27 de novembro de 2020

BLECAUTE - O GENERAL DA BANDA

 AS VOZES NEGRAS DO Rádio no Brasil

O Rádio em 30 dias” era a conceituada coluna da então Revista da Música Popular, com texto do crítico, pesquisador e cronista pernambucano Nestor de Holanda radicado no Rio de Janeiro, ao lado de outros conterrâneos seus como Antonio Maria, Zé Dantas, Luiz Vieira, Luiz Gonzaga, Haroldo Lobo, entre outros. Em setembro de 1954. assim retratava Nestor de Holanda, o seu amigo apelidado artisticamente de Black-Out, mais tarde Blecaute, que poderia ser o que se convencionou a chamarem hoje, de “apagão”. Era mais um “colored” da nossa música. Consagrado intérprete principalmente nas famosas marchinhas e sambas carnavalescos. O texto, na íntegra, quer destacar e revelar o talento do artista. Nos dias atuais, com certeza algum intolerante quisesse enquadrar o cronista na lei Afonso Arinos..

 (A Lei Afonso Arinos é uma lei proposta por Afonso Arinos de Melo Franco e promulgada por Getúlio Vargas em 3 de julho de 1951 que proíbe a discriminação racial no Brasil. É o primeiro código brasileiro a incluir entre as contravenções penais a prática de atos resultantes de preconceito de raça e cor da pele)..

Eis um trecho do que publicava Nestor de Holanda:  “ O nome e a fotografia mostram bem que se trata de uma figura escura do nosso rádio. Mas escura apenas na epiderme. Porque, no mais Black-Out brilha. Brilha porque tem um jeitão todo seu de cantar sambas e é um sujeito simpático. Por dentro daquela pele negra tem um coração brinquinho e um fígado que não muda de cor, de tão bom. Por isso, Black-Out, que chama este cronista de “meu irmão branco”, anda sempre mostrando aquela dentadura de giz que Deus lhe deu, e jamais deixou de ser bem recebido com muitos aplausos pelo público”. Otávio Henrique de Oliveira (nasceu em 1919 e faleceu no Rio em 1983), - Blecaute artisticamente - “O general da Banda”, como chamado, se apresentar por muitas vezes, fardado inclusive.

 










Vamos ouvir Blecaute em  dois momentos marcantes da carreira:  Primeiro com  O PÉ DE ANJO – com a participação do Conjunto Instrumental sob a regência do maestro José Menezes, e os grupos vocais As Gatas e Os Gatos; A gravação original foi feita há mais de cem anos,1919, com a Banda do Bloco “Fala Meu Louro” no mesmo ano, Francisco Alves também a registrou com acompanhamento orquestral. A versão que vamos ouvir foi gravada em 23 de abril de 1971. Vejam que foi aproveitada a chamada tradicional, original da época, onde uma voz anunciava o nome do cantor, aqui, anunciando a voz de Francisco Alves.

Em seguida, Blecaute chega com a consagrada marchinha de carnaval com a história daquela funcionária que só chegava na repartição, no final do expediente. A famosa Maria Candelária. Autoria de Clecius Caldas e Armando Cavalcante. Na página Memória Musical.

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

PRETO NÃO ENTRA

 AS VOZES NEGRAS DO Rádio no Brasil

Conforme prometemos, vamos destacar alguns dos milhares de artistas negros brasileiros no campo de musicalidade. Enumerá-los é tarefa das mais difíceis, de modo que vamos destacar uns poucos que alcançaram o estrelato, justamente porque ganharam notoriedade e reconhecimento num dos momentos da nossa história, onde mais era latente o tal preconceito de cor. Época do preconceito escancarado, ao contrario do preconceito velado como se ver em algumas situações aqui na nossa chamada “Democracia Racial”, justamente entre diretores e os produtores de shows. (até nisso o s brasileiros queriam imitar os norte-americanos). Recomendo  o filme “Raça”  no Netflix. Vamos voltar ao nosso tema, porque preconceito é assunto para sociólogos.

Blecaute, Chocolate, Risadinha, Gasolina, Príncipe Pretinho, Vassourinha e Pato Preto. São apelidos, nomes artísticos, ou vulgos? Todos, sem exceção, são artistas negros da chamada Era de Ouro do Rádio, alguns chegaram depois TV. Até o nosso Luiz Gonzaga, sentiu o problema em 1951 ao tentar entrar na Rádio Gazeta de São Paulo, para assistir uma apresentação de um amigo sanfoneiro. Mas, o saudoso “Gonzagão” não se intimidou. Denunciou  o fato à Revista do Rádio -  uma das mais lidas revistas da época – dando detalhes do ocorrido. Título da matéria:  “Preto não Entra”. O porteiro proibiu sua entrada em “trajes civis” ele só era visto em sua indumentária pública de cangaceiro nos palcos. Primeiro alegou que os ingressos estavam esgotados, Gonzaga argumentou que também era artista. Entrou na marra, foi contido ainda no primeiro andar pelo porteiro e mais dois seguranças. Destava vez foi claro. Preto não entrava! Veio o diretor da emissora que se desculpou pelo ocorrido e permitindo que ele entrasse. Gonzaga lembrou depois: “ não é era primeira vez, quando tentou namorar uma branca, teve que fugir de Exu em 1930”.

Dos acima citados, vamos destacar o hoje também esquecido Vassourinha - Mário de Almeida Ramos, nasceu em 1923, trabalhava na limpeza da rádio Record, gostava de cantarolar  enquanto varria os corredores da rádio. Mas, o apelido herdou não do seu instrumento de trabalho e sim de um motorista de táxi apelidado de “Vassoura” e que frequentava a emissora. Como eram muito parecidos começaram a chama-lo filho de Vassoura e acabou como  “Vassourinha”. Extremamente talentoso e comunicativo. Aos l2 anos, franzino e mirrado, já começava a cantar nos programas de auditório. Todos os críticos e pesquisadores nessa área são unânimes: “dificilmente um cantor negro, jovem,  alcançaria a projeção que o sambista da Record  conquistou. Aos l5 anos de idade, “ o moleque de ouro” da Record,  já era ídolo da emissora do  Paulo Machado de Carvalho. Os contratos pipocavam de todos os cantos do País”, diz Thaís  Matarazzo Cantero, pesquisadora  e jornalista, autora  do livro “Artistas Negros da música popular e do rádio”, (Expressões & Arte Editora, 403 páginas.)

Vassourinha dividiu os palcos com os maiores nomes da música na época, entre os quais, Sílvio Caldas, Almirante, Carmen Miranda, Aos 18 anos, o menino pobre do subúrbio da Barra Funda, filho de mãe solteira, ganhava a fortuna de 600 mil réis. Foi curta a sua passagem pelas gravadoras. Estreou na Colúmbia com dois clássicos: “Juracy” de Antonio Almeida/Ciro de Souza  e  “Seu Libório”  de João de Barro (Braguinha)  e Alberto Ribeiro.

Um ano depois gravou o samba  “Emília” Haroldo Lobo  e Wilson Batista. Morreu no dia 3 de agosto de 1943, aos l9 anos, no auge do sucesso. vítima de tuberculose.

Na página Memória Musical ouça Vassourinha nas gravações originais de “Emília” na gravadora Colúmbia que depois seria a gravadora Continental. Gravação feita no dia 19 de setembro de 1941. Depois vem o apelo, “Volta prá casa Emília”. São os males do amor no desabafo e na visão dos compositores, Antonio Almeida e do parceiro José Batista.

terça-feira, 24 de novembro de 2020

AS VOZES NEGRAS DO RÁDIO NO BRASIL

Vamos dar um giro pela trajetória de alguns nomes de nossa música popular que sofreram e amargaram o tal “preconceito velado” no País. Mas, antes, vamos passar por este atualíssimo  texto de autoria de Daniel Brazil, escritor, pesquisador de música, roteirista e diretor de TV, publicado no último dia 29 de abril, intitulado “ A Música Negra das Américas.  

- “Um dos fenômenos mais notáveis ocorridos no Novo Mundo foi a miscigenação das raças branca, negra e nativa. Nunca a humanidade havia provado em tão larga escala a mistura de raças, de culturas, de religiões, de temperamentos, de sangue enfim. Ásia, Europa e África, cada continente com suas peculiaridades, nem chegam perto do experimento cultural explosivo que ocorreu no território americano.
Na música popular isso teve um efeito impressionante. A variedade de ritmos e formas musicais surgidas nas Américas acabou dominando o planeta. E foi mais marcante justamente onde a presença africana esteve mais presente: Brasil, EUA, Cuba, Jamaica... Mesmo nos países mais “brancos”, ou “indígenas”, a influência negra é marcante. Samba(s), mambo, jazz, blues, reggae, choro, rumba, batuque, baião, embolada, son, guajira, ska, bossa nova, cumbia, candombe, conga, maracatu, hip hop, danzón, soul music, trova, habanera, salsa, carimbó... a lista é quase interminável.
Conversava outro dia sobre a música cubana, atividade de quarentena, e revi (reouvi) o belo filme Buena Vista Social Club, de Wim Wenders. Está no Youtube, fácil de assistir. Mas o que me chamou a atenção foram os comentários de brasileiros que elogiam os músicos, mas fazem questão de destacar que “coitados, vivem na miséria, estavam esquecidos, mereciam muito mais, se não morassem em Cuba...”
Em que mundo estas pessoas vivem? Gostaria de recomendar a cada um o documentário sobre a Velha Guarda da Portela, “redescoberta” (para alguns desavisados) por Marisa Monte em 2011. Nosso Buena Vista Social Club, se formos analisar os talentos, a musicalidade, a produção riquíssima. Onde aqueles idiotas acham que os protagonistas moram? Na favela, muitos deles. No subúrbio, a totalidade. Quando chegaram às telas televisivas? No carnaval, alguns minutos perdidos no meio da multidão.
Idem, as velhas guardas da Mangueira, do Salgueiro, da Vai-Vai, os cantadores do Nordeste, os violeiros do interior do país, os guitarreiros do Norte, os cirandeiros, os frevistas, as cantadoras do Recôncavo, os catireiros...
Daria pra fazer um filme – ou vários - com cada grupo desses citados. Mas o brasileiro não costuma reconhecer sua própria diversidade, sua riqueza, e também não enxerga seu racismo, seu preconceito, seu enviesado senso de justiça.
É fácil gostar da música cubana, tão quente e sanguineamente próxima, como gostar do blues ou do jazz. Reconhecer que a maioria dos mestres-definidores destes gêneros nasceram, cresceram e (muitos deles) morreram na miséria é um exercício necessário para ampliar nossa compreensão do mistério fundamental da criação artística: independe de classe, raça, cor, gênero ou nacionalidade. E menos ainda de conveniências políticas adubadas pela ignorância histórica”.

 

 

domingo, 22 de novembro de 2020

A NEGRA FULÔ DE JORGE DE LIMA

 O alagoano Jorge Mateus de Lima, nasceu dia 23 de abril de 1893 na cidade alagoana de União dos Palmares (o Âlamo de Zumbi). Faleceu no  Rio de Janeiro15 de novembro de 1953) foi políticomédicopoetaromancistabiógrafoensaístatradutor e pintor brasileiro. Viria a se consagrar como autor de um vasto poema em dez cantos com uma diversidade enorme de formas, ritmos e intertextos.

Voltou para Maceió em 1915 onde se dedicou à medicina, além da literatura e da política. Quando se mudou de Alagoas para o Rio, em 1930, montou um consultório na Cinelândia, transformado também em ateliê de pintura e ponto de encontro de intelectuais. Reunia-se lá gente como Murilo MendesGraciliano Ramos e José Lins do Rego. Nesse período publicou aproximadamente dez livros, sendo cinco de poesia. Também exerceu o cargo de deputado estadual, de 1918 a 1922. Com a Revolução de 1930 foi levado a radicar-se definitivamente no Rio de Janeiro.

Em 1939 passou a dedicar-se também às artes plásticas, participando de algumas exposições. Em 1952, publicou seu livro mais importante, o épico Invenção de Orfeu. Em 1953, meses antes de morrer, gravou poemas para o Arquivo da Palavra Falada da Biblioteca do Congresso de Washington, nos Estados Unidos.

Curiosidade

Jorge de Lima candidatou-se seis vezes para ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL), no entanto, não conseguiu o cargo.

Poema de onde sai um mundo, um mundo apenas aparentemente extinto, aparente domínio do branco sobre o negro. Tão distante e tão presente na vida do povo brasileiro.

Hoje são outras as práticas e outras as relações de domínio entre seres humanos, mas a sua verdade, tão pungentemente aqui descrita, permanece...

 

Negra Fulô :

Antes era assim que a Sinhá tratava a Negra Fulô :

 “vem cá peste”...vem cá nega miseravi... “Essa praga num presta”. “vai balançar o menino nêga infeliz”, “Cadê a roupa lavada do teu Sinhô, tú ainda não passou o ferro?” “já arrumou a camarinha do teu Sinhô”? ...

Histórica fotografia “Uma Escrava do Brasil” - Alberto Henschel, de 1875.

Negra Fulô :

Antes era assim que a Sinhá tratava a Negra Fulô :

 “vem cá peste”...vem cá nega miseravi... “Essa praga num presta”. “vai balançar o menino nêga infeliz”, “Cadê a roupa lavada do teu Sinhô, tú ainda não passou o ferro?” “já arrumou a camarinha do teu Sinhô”? ...

Essa Negra Fulô
Ora, se deu que chegou
(isso já faz muito tempo...!)
no bangüê dum meu avô
uma negra bonitinha,
chamada negra Fulô.
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
 Vai forrar a minha cama,
pentear os meus cabelos,
vem ajudar a tirar
a minha roupa, Fulô!
Essa negra Fulô!
Essa negrinha Fulô
ficou logo pra mucama,
pra vigiar a Sinhá
pra engomar pro Sinhô!

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
vem me ajudar, ó Fulô,
vem abanar o meu corpo
que eu estou suada, Fulô!
vem coçar minha coceira,
vem me catar cafuné,
vem balançar minha rede,
vem me contar uma história,
que eu estou com sono, Fulô!...
Essa negra Fulô!
E lá ia ela de olhos fechados...
no seu mundo de sonhos...para sua narrativa:
Era um dia uma princesa
que vivia num castelo
que possuía um vestido
com os peixinhos do mar.
Entrou na perna dum pato
saiu na perna dum pinto
o Rei-Sinhô me mandou
que vos contasse mais cinco.”

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô? Ó Fulô?
Vai botar para dormir
esses meninos, Fulô!
E lá ia ela:
“Minha mãe me penteou
minha madrasta me enterrou
pelos figos da figueira
que o Sabiá beliscou.”

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô? Ó Fulô?
(Era a fala da Sinhá
Chamando a negra Fulô.)
Cadê meu frasco de cheiro
Que teu Sinhô me mandou?
Ah! Foi você que roubou!
Ah! Foi você que roubou!
O Sinhô foi ver a negra
levar couro do feitor.
A negra tirou a roupa.
O Sinhô disse: Fulô!
(A vista se escureceu
que nem a negra Fulô.)

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê meu lenço de rendas,
Cadê meu cinto, meu broche,
Cadê o meu terço de ouro
que teu Sinhô me mandou?
Ah! foi você que roubou.
Ah! foi você que roubou.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
O Sinhô foi açoitar
sozinho a negra Fulô.
A negra tirou a saia
e tirou o cabeção,
de dentro dêle pulou
nuinha a negra Fulô.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê, cadê teu Sinhô
que Nosso Senhor me mandou?
Ah! Foi você que roubou,
foi você, negra fulô?
Essa negra Fulô!

sábado, 14 de novembro de 2020

DICK FARNEY – O Sinatra brasileiro

Farnésio Dutra e Silva. Começou  enveredando pela música norte-americana. Desde cedo.  Aprendeu tocar piano  na infância e como quase todos que começam nesse instrumento, suas atenções se voltaram para a música erudita, - aconselhado pelo pai -  por sua vez, sua mãe lhe ensinava noções de canto. Nasceu no dia 14 de novembro  de 1921, no Rio de Janeiro, portanto, ano que vem  completaria 100 anos. Morreu aos 66, no dia 4 de agosto de 1987, em São Paulo-SP.


Apresentou-se, os 14 anos, na Rádio Mayrink Veiga, no programa "Picolino", de Barbosa Júnior quando executou ao piano a "Dança ritual do fogo", do compositor espanhol Manuel de Falla (1876-1946). Depois veio o interesse pela música norte-americana e tornou-se pianista do conjunto Swing Maníacos, ao lado do irmão Cyll Farney, que era baterista. O Swing Maníacos acompanhou Edu da Gaita na gravação de "Canção da Índia", do compositor russo Nikolay Rimsky-Korsakov (1844-1908).

Sua estréia como cantor aconteceu em 1937, no programa Hora Juvenil, da Rádio Cruzeiro do Sul, no Rio de Janeiro, quando interpretou Deep Purple, de David Rose. A afinidade com o repertório norte-americano levou-o, pelas mãos do radialista César Ladeira, à Rádio Mayrink Veiga, onde passou a apresentar seu próprio programa: "Dick Farney, sua Voz e seu Piano", com repertório recheado de canções norte-americanas.  Mais informações sobre a trajetória de Dick Farney em Memória Musical. 

Ouça ainda dois grandes sucessos dele: “Nick Bar” de José Vasconcelos e “Ranchino de Palha” de Luiz Bonfá.

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

ESTÔNIA DIGITALIZADO EM QUASE TUDO

Acabo de ler um artigo muito interessante a respeito, publicado na Internet, por Yasmini Ferrara  MBA em E-commerce e em excelência no atendimento pela= Disney Institute, premiada em 2016, pelo E-commerce Brasil e em 2018 pela Abccom como profissional de vendas e uma apaixonada por inovação, evidentemente. Eis alguns trechos:

 


 “A Estônia é um pequeno país báltico, com 1,3 milhão de habitantes e 45 mil quilômetros quadrados de extensão, - o que representa a metade do território de Santa Catarina. O país, que tem uma democracia parlamentar e a cidade de Tallinn como sua capital, integra a união europeia desde 2004.”

O governo da Estônia é recente. Data de 1991, quando o país se separou da União Soviética e contou com míseros US$ 100 milhões para construir sua estrutura. O valor é bem baixo, considerando todos os itens que precisam ser feitos em um país.

Para o país, alguns segredos fazem o modelo funcionar. Eles consideram que a internet é um direito social de todos e todos os estonianos tem que ter o e-ID, já que 99% dos serviços são online e a população confia no sistema.

O primeiro projeto foi de Imposto de Renda, em 2000, registrando todos os cidadãos e suas informações de imóveis, recebimentos, da mesma forma que temos o nosso IRPF no Brasil. Continua em Periscópio.

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

SOU O NOVO PREFEITO, E AGORA?

“Quem quiser aprender... é só prestar atenção...”  repetindo o baião do velho Gonzagão. E haja “ão”. Nosso assunto é dirigido àqueles que vão assumir as redes do poder municipal a partir do próximo janeiro de 2021, na maior parte dos municípios. Os pobres de Jó! Como se governa para melhorar os padrões de vida de uma população pequena, num município de recursos e eternos pedintes  da benevolência e das transferências do tesouro federal? (sim, porque se depender  dos cofres do Estado...).

Desde que o novo mandatário tenha sim, realmente, o desejo e o  compromisso de ver o seu município melhorar.

No Rio Grande do Norte, para se conhecer o caminho das pedras, o melhor e mais real exemplo do que se chama de “começar do zero”, é se mirar como foi o “parto”, o nascer sem um agasalho do município potiguar de nome pouco comum,  Venha Ver”!  LEIA EM PERISCÓPIO.



TRUMP SAI OU NÃO SAI?

Fraude?
As eleições americanas e seus infindáveis desdobramentos  fizeram com que vários assuntos na pauta as discussões mundiais na imprensa, passassem para um segundo plano. Aliás, tocando nesse assunto, é difícil entender como a maior potência econômica e militar, com uma tecnologia que alcança outros planetas não consegue avançar num simples processo de contagem de votos? Que adota um sistema de contagem que remonta aos tempos bíblicos?  “votos contaminados”, “fraude” e outros adjetivos pouco recomendáveis. Faz o dia a dia dos americanos. Onde fica o espelho e o exemplo de maior democracia do mundo? O impasse continua se arrastando e ninguém se atreva a ter a menor opinião quanto ao seu término. Pode ser resolvido em dias, semanas e até meses, para ser oficialmente declarado eleito  o senador Joe Biden. Vai mudar alguma coisa, anular algumas dezenas ou centenas votos? A resposta é não, mas fica muito abalada a credibilidade e a lisura do sistema eleitoral americano.

TRUMP SAI OU NÃO SAI?

O pato leva um tiro e sai mancando, quando sai, (mas, às vezes insiste e fica rodando em círculos na área)” ou, como se diz por  aqui no Nordeste com o político “Cururu de banheiro”. Quanto mais se tenta afastá-lo, mais ele insiste em voltar ao local. São comparados aqueles políticos que após perderem as eleições, não se conformam  ou não aceitam os resultados das urnas. Em Periscópio


4G - 5G - 6G

 “O prato do dia” que antes  girava em torno da Internet 5G e as disputas pelos mercados mundias envolvendo  EUA, China, Japão agora, mais recentemente a Suécia resolveu entrar na “rinha de briga de galo”. Aliás, desde janeiro que o Brasil já deveria ter dado a palavra final a respeito do 5G. Os meses foram passando e o ano vai terminar e nada decidido. Não se iludam a discussão está quase voltando às páginas principais da imprensa, só não vai passar  à frente do tema “vacina ou vachina” como dizem alguns jocosamente.

Conforme noticiou ontem o site da BBC/Tweak Town

“Ontem, a China dá mais um passo à frente nessa área e anunciou o lançamento de um satélite chamado de Star Era-12, para realizar os primeiros testes do futuro 6-G. (não se assustem) terá  uma velocidades de transmissão de dados até 100 vezes  mais rápidas que as oferecidas pelo padrão 5-G, que sua vez é a atual 4-G.

A indústria de telecomunicações ainda está trabalhando nas especificações. É segredo de Estado. Pelo que se sabe até agora que esse novo avanço terá tecnologia para monitoramento de desastres em áreas de plantio e prevenção de incêndios florestais.

E acrescente:

- “ Ainda sobre a tecnologia 6G, em julho deste ano a Samsung falou um pouco sobre o padrão de rede 6G em seu estudo intitulado “A próxima experiência hiper conectada para todos” e disse que acredita que a tecnologia deve começar a ser comercializada em 2028 e pode entrar em vigor a partir de 2030.

Já em agosto foi anunciado que a Coreia do Sul lançará seu projeto-piloto do 6G em 2026. A partir de 2021, o governo sul-coreano planeja investir 200 bilhões de wons (cerca de 175 bilhões de dólares na cotação atual) ao longo de cinco anos neste projeto, que tem como objetivo alcançar a velocidade de transmissão de dados de um terabyte por segundo e reduzir a latência para 0,1ms em serviços em fio e para 5ms em serviços com fio. Outro detalhe sobre o projeto-piloto sul-coreano é que ele também tem como meta oferecer serviços de comunicação 6G a até 10km acima do solo.” Os asiáticos continuam surpreendendo. 

falem mal, mas falem de mim

Os chineses só perdem para o nosso Presidente quando fala de improviso imitando a política do bate/assopra o seu colega Donald Trump respeitadas as devidas proporções, claro). Em Periscópio



terça-feira, 10 de novembro de 2020

CORONAVAC

 Agora volta à tona a bronca da Coronavac, com seus contornos políticos. O presidente do Instituto Butantan reclama que não foi informado oficialmente, e sim, pela imprensa, da suspensão dos testes com a vacina chinês contra o Covid-19, depois do que classificou de  “evento adverso grave”.  Não foi a primeira vacina a ter seus testes suspensos (ensaios clínicos) por conta desses tais “eventos adversos graves”. Primeiro ocorreu com a vacina de Oxford. Depois com a vacina da Johnson & Johnson. Só que nos casos anteriores, foram os próprios laboratórios. Agências reguladoras do mundo inteiro são orientadas a ter esse mesmo procedimento até que tudo seja devidamente apurado. É o que eles chamam de padrão de segurança. Mas, no Brasil, claro, a coisa toma feições politiqueiras, em outras palavras a briga Dória x Bolsonaro. Estão ideologizando uma coisa que não é ideológica e sim, uma questão sanitária, de saúde pública. Existem ações tramitando na justiça, impetradas por partidos políticos para que as pessoas sejam obrigadas a receber a tomar a vacina. Uma pergunta: como obrigar a pessoa a receber um remédio que nem existe ainda?

Pfizer

No mesmo dia, a Pfizer americana consorciada com laboratório alemão BioNTech, anunciou ao mundo o avanço alcançado com os seus testes apontando 90 por cento de resultado positivo. Foram   43 mil pessoas, a metade recebeu um placebo, inócuo, e a outra metade a vacina, teve 94 casos de Covid desses apenas 8 deles havia tomado a vacina, sem dúvida um grande resultado. Acima dos 75% considerado pela OMS.

Mas, (sempre tem um “mas”), esse tipo de vacina é uma experiência pioneira, pois nunca se tomou vacina  usando uma parte de material genético. Já tomamos vacinas de vírus enfraquecidos. No caso do Covid-19 parte do  material é utilizado na pessoa para estimular  o corpo a produzir defesa contra o Sars- Cov-2.

É a única vacina que teve um caráter de primazia, e vale ressaltar, ainda que é a primeira vacina autorizada ou prestes a ser autorizada no mundo com o RNA modificado, também, por isso ela tem condições especialíssimas de transporte e armazenamento, o resfriamento (mais de 80%), para não perder suas potencialidades. Já pensou a logística para  utiliza-la em países com extensão territorial como  o Brasil?  A Pzifer já recebeu encomenda para 120 milhões de doses para o Japão; 100 milhões de doses para os Estados Unidos; 30 milhões de doses para a Inglaterra; 200 milhões de doses para a Europa. E o tempo que vai levar para atender as encomendas?.

Mortes no Brasil que ninguém comenta nem compara:

De março até a data de ontem – segundo dados cartoriais de óbitos – Covid-19/causa-mortis 154 mil casos (extraoficialmente 162 mil); doenças cardiovasculares 122 mil; Outras enfermidades, inclusive, respiratórias 188 mil mortes.

domingo, 8 de novembro de 2020

ANTONIO MARCOS PENSAMENTO DA SILVA.

 Ele morreu muito jovem e teve uma vida muito tumultuada. Trabalhou no comércio, para manter-se e também como “office boy”( vendeu sapatos). Voz bonita, jovem atraente, muito talento  e criatividade. Foram os ingredientes para atrair e chamar atenção no meio artístico. Começou cantando em programas de calouros em auditórios entre eles, o programa de Estevam Sangirardi, onde cantava, tocava violão e fazia humorismo. Aventurou-se na música profissional gravando c om o conjunto “Os Iguais”, em 1966, a convite do produtor Ramalho Neto, na gravadora RCA Victor (“ A Partida” e Quero te dar meu coração”). Daí em diante  foram muitas gravações. Em 1972, conheceu Vanusa, com quem teve duas filhas Amanda e Aretha. Separaram-se depois. Ele casou em seguida com a atriz Débora Duarte, de cuja união nasceu Paloma Duarte, que seria futura atriz. Separou-se de novo. Casou pela terceira vez com Rose, de cuja união nasceu Pablo com sete anos. Antonio Marcos, faleceu no dia 5 de abril de 1992, aos 47 anos. O excesso de álcool,  principalmente, provocou uma cirrose irreversível.

Coincidentemente, neste dia 8 de novembro de 2020, quando ele completaria 75 anos de existência, a morte veio buscar a sua ex - companheira Vanusa, aos 73 anos. Vanusa Santos Freire (22 de setembro de 1947) estava vivendo num casa de repouso em Santos, SP, há cerca de dez anos. Continua em Memória Musical.



sábado, 7 de novembro de 2020

O GRANDE TALENTO DE GILBERTO MILFONT

 João Milfont Rodrigues ou Gilberto Milfont (nome artístico que adotou). Esse cearense de Lavras da Mangabeira encantou o Brasil, nascido no dia 7 de novembro e 1922, encantou o Brasil com o seu estilo vanguardista. Um pioneiro do samba-canção, mais elaborado. Segundo o grande crítico e pesquisador musical, Ricardo Cravo Albin,  - “ainda na adolescência, integrou regional onde atuava ao lado de Zé Cavaquinho (Zé Meneses). Contam que sua voz na época se assemelhava muito à voz de Carmen Miranda. Durante o período de dois anos, fase de mudança de voz, afastou-se das atividades artísticas. Já como adulto, seu modelo musical foi Orlando Silva".

Sua primeira apresentação pública ocorreu em 1936, quando se apresentou no programa Hora infantil na PRE - 9, levado por um tio. Em 1938, voltou a se apresentar no programa na PRE - 9. Como os lançamentos de discos feitos no Rio de Janeiro demoravam a chegar ao Ceará, de maneira curiosa, buscou uma alternativa para que seu repertório não ficasse ultrapassado:

Estava produzindo naqueles meados dos anos 40. Seu "Esquece" é uma absoluta obra-prima, em absoluta igualdade de valor com o melhor Tom Jobim, Carlos Lyra, Roberto Menescal e Durval-Mauricio que são todos filhotes de Gilberto. 

O mesmo Cravo Albin publicaria em 2017 dias antes do seu falecimento no Rio de Janeiro em (13/12/2017) .

 – “Não importa para a história da MPB por quanto tempo mais ele venha a respirar, importa para nós, seus admiradores. Mas o nome de Milfont , já está, há muitas décadas, inscrito no que de melhor se produziu por estas plagas em matéria de música popular adulta e rica”.

Rica, muita rica acima de tudo, foi a seleta discografia que deixou para a posteridade. Imprimia um estilo próprio nas gravações, inconfundível.

É outro injustamente esquecido. Sua mais bela interpretação, a meu ver, e foram tantas, foi Castigo de Lupicínio Rodrigues. Compositor vanguardista romântico deixou, dentre outras, “Esquece”. Sem falar que sustentou a lembrança do carnaval, ao se apresentar, com os remanescentes de ouro da Era do Rádio, na Cinelândia, até idade bem avançada. Pelo menos viveu bastante e, tenho certeza, foi feliz.


Este 7 de novembro marca o nascimento de outro gigante da MPB, Ary Barroso, (Ary Evangelista Barroso, Ubá MG 7 de novembro de 1903 e falecido no Rio de Janeiro no dia 9 de fevereiro de 1964 (60 anos),

em consequência de uma pneumonia, em um domingo de Carnaval, no dia em que a escola de samba Império Serrano lhe prestava uma homenagem com o enredo “Aquarela do Brasil”.

Autor da expressão maior dos “sambas-exaltação” a Aquarela do Brasil, chamada por muitos como o segundo Hino Nacional Brasileiro.  Reconhecimento internacional  aconteceu quando foi indicado ao Oscar de melhor canção original, com a música Rio de Janeiro, do filme Brasil em 1944. Leia mais em Memória Musical.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

CARLOS IMPERIAL - O IRREVERENTE

 


Programou-se  “para nascer e morrer em novembro”, dizia aos amigos em tom de brincadeira e não deu outra. Assim foi Carlos Eduardo da Corte Imperial, ou simplesmente Carlos Imperial. O capixaba de Cachoeiro do Itapemirim nasceu no dia 24 de novembro e desencantou-se no dia 4 de novembro de 1992. Lançou dezenas de artistas dentre os quais Roberto Carlos, Wilson Simonal, Paulo Sérgio, Elis Regina, Tim Maia, Jorge Bem, Eduardo Araújo, Clara Nunes, Renato e seus Blue Caps e outras bandas de rock. Produziu, dirigiu e apresentou-se em filmes, peças de teatro, programas de televisão, compôs grandes sucessos musicais, (“Vem quente que estou fervendo”, “A Praça” e tantos outros. 



Um homem divertido, polivalente, controverso, por tudo isso, um irrequieto. O cenário artístico e cultural do Brasil seria bem diferente se não fosse Carlos Imperial – conforme testemunho de Denilson Monteiro, nas notas da biografia póstuma “Dez! Nota Dez! Eu Sou Carlos Imperial” – “ele foi presença constante na música, no cinema, no teatro, na TV, nos jornais e revistas e até na política”. LEIA MAIS EM MEMÓRIA MUSICAL

terça-feira, 3 de novembro de 2020

RÉQUIEM PARA RACHEL DE QUEIROZ

 


 Por Murilo Melo Filho

Cearense de Fortaleza, Rachel de Queiroz nasceu no dia 17 de novembro de 1910. E morreu no dia 4 de novembro de 2002, portanto às vésperas de completar 93 anos. Ao longo destes anos, tão bem vividos, ela foi sempre uma admirável escritora., que ainda há pouco tempo lançou o livro Tantos Anos, escrito a quatro mãos com a irmã Maria Luíza. “Sem ela, não haveria livro, que me arrancou à força. Trabalhamos juntas durante quatro anos, ela me perguntando e eu respondendo”, contava a autora de livros consagrados e referenciais, como O Quinze - escrito quando tinha apenas 20 anos, uma obra pronta e acabada, que a consagrou no universo literário do país. Escreveu também Lampião, A beata Maria do Egito, João Miguel, Caminho de pedras, O galo de ouro, Memorial de Maria Moura, Dôra Doralina e As três Marias, seus dois melhores romances.

Transparente, coerente e sincera, com a sensibilidade nordestina à flor da pele, Rachel ofereceu-nos sempre uma permanente lição de fidelidade à sua vida de contadora de histórias. Poucos autores conseguiram, melhor do que ela, escrever com tanta desenvoltura e   simplicidade. Sua prosa é sóbria, coloquial e escorreita; trafega, límpida, fagueira e impávida, pelos olhos do leitor, sem transbordamentos, sem excessos e sem retumbâncias, dentro de uma narrativa não raro dramática, com enfoque especial contra os estamentos preconceituosos da aristocrática sociedade de então.

Foi a pioneira da temática social no romanceiro nordestino: dos paraibanos José Américo, José Lins do Rêgo e Ariano Suassuna; do pernambucano Gilberto Freyre; do alagoano Graciliano Ramos; do sergipano Amando Fontes e do baiano Jorge Amado. Foi pioneira também na Academia Brasileira de Letras, a primeira mulher a eleger-se em nossos quadros de Membros Efetivos, para a Cadeira n.º 5, na sucessão de Cândido Mota Filho. O presidente Jânio Quadros quis nomeá-la ministra da Educação, mas ela não aceitou o convite, por entender que uma professora do Ceará não devia ocupar um Ministério. E se perguntava: “Como continuar sendo escritora e ministra ao mesmo tempo?”

Revelava que aos 20 anos já estava no Partido Comunista: “Logo cedo, porém, vi que era impossível a convivência de pessoas inteligentes com comunistas militantes. Dois anos depois, rompi com o partido, quando ele censurou uma peça minha e quis me obrigar a fazer uma auto-censura. Fui então expulsa solenemente. Chamaram-me até de policial-fascista, embora ainda hoje me tenho como socialista e, por isto mesmo, estou a milhares de quilômetros da Rússia”.

Seu tataravô era tio e padrinho do romancista José de Alencar, do qual se considera assim uma descendente. Por parte dos Alencares, era prima do Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco. Morou durante 12 anos na ilha do Governador; residiu durante 14 anos na Rua Cândido Mendes, na Glória; e há vários anos, morava em seu refúgio da Rua Rita Ludolf, no Leblon. Sua única filha morreu com 1 ano e meio de idade. Coube-lhe criar a irmã Maria Luíza, além dos netos Flávio e Daniel, que considerava filhos. Dizia: “Os avós não têm obrigação de educar os netos. Só de amá-los. Educação é tarefa dos pais”.

E quanto aos seus livros? “Não costumo relê-los. De certo modo, sinto até um pouco de vergonha deles, embora alguns me persigam até hoje. De nenhum fiz propriamente um lançamento, com noite de autógrafos. Eles sempre chegavam discretamente às livrarias e aí ficavam à disposição”. Rachel se considerava uma senhora avó, que já havia pago todas as prestações da vida. E, ao contrário do sertanejo, que, quando recebe um convite para tomar chá, responde: “Obrigado, mas não estou doente”, Rachel gostava de chá e, por isto, não estranhou o da Academia Brasileira de Letras, nas nossas quintas-feiras.

Vascaína e adepta do casamento, ela escrevia por obrigação, nunca teve fé, era uma atéia mística, com nostalgia de religião, de Deus e de uma alma imortal, que não sabia se tinha, mas que gostaria de ter.



 * O potiguar Murilo Melo Filho, que faleceu no dia 27 de maio deste ano (2020), aos 91 anos, no Rio de Janeiro, traçou o perfil da admirável escritora cearense, Rachel de Queiroz, falecida no dia 4 de novembro de 2002.

Só mesmo ele, Murilo, advogado, jornalista e escritor que começou a mexer com as letras muito cedo, aos doze anos, no Diário de Natal, depois na “A Ordem”, no centenário “A República”  tendo incursionado também pela rádio (Rádio Educadora de Natal). Trabalhou nos Diários Associados, na Revista Manchete, acompanhou como repórter a construção de Brasília, desde os primeiros alicerces. Tornou-se um dos mais respeitados  e acreditados jornalistas do país, entrevistou reis, rainhas, imperadores, presidentes e ditadores. Cobriu brilhantemente as guerras do Vietnam e do Camboja.

Dia 3 de outubro de 1959, ela escreveu na última página da revista O Cruzeiro onde, semanalmente publicava seus textos, sobre seu encontro com o poeta, o Cego Aderaldo, cujo teor publicamos aqui no Blog no dia 5 de agosto último na página “Periscópio”

“O povo da cidade grande não pode fazer idéia do que é o renome e a grandeza de um cantador de viola. Êle é a voz cantadeira de tôda uma gente que não tem outra forma de expressão própria, que não lê nem escreve e, na sua necessidade de poesia e comunicação, fala e se entende pela bôca do cantador. Êle é o lírico, o épico, o noticioso, o cômico”